Uniban investiga propolis contra o tumor.
Composto da substância antibiotica produzida por abelhas revela baixa toxidade em testes com camundongos.

Os papéis parecem brotar da mesa de José Agustín Quincoces Suarez na Uniban (Universidade Bandeirante de São Paulo) enquanto ele descreve os resultados terapêuticos, obtidos in vitro com culturas de células, de um composto que sintetizou em seu laboratorio. A substância, derivada da propolis das abelhas, parece boa demais para ser verdade: apresenta um potente efeito contra tumores e baixo nível de toxidade.

“Quando fizemos os primeiros testes de toxidade letal e de efeito antitumoral, todo mundo achou que tinha algo errado. Fizemos de novo e o resultado foi o mesmo”, ele conta, enquanto mostra dezenas de gráficos que sugerem a potência da substância.

Não é de todo surpreendente que um derivado de propolis tenha poder medicamentoso: as abelhas usam essa substância na colméia como uma espécie de antibiotico natural, para evitar que as larvas sejam afetadas por infecção. Mas Quincoces, 56, afirma que, durante seus mais de 30 anos como químico, nunca havia se interessado por ela antes. Ele so se envolveu na pesquisa quando veio de Cuba e precisou se integrar a um dos grupos já formados na Uniban em 1999.

A partir daí, analisando os componentes da propolis, Quincoces passou a investigar quais moléculas ele poderia sintetizar em laboratorio e, dessas, quais poderiam ter algum potencial médico. Da lista final de substâncias, a mais promissora aparece em seus papéis designados, misteriosamente, apenas como “composto 37”.

Em testes in vitro com culturas de células cancerosas, essa substância mostrou enorme capacidade de interromper a sua proliferação e, em maior quantidade, efetivamente matar os tumores. Em geral foi necessária uma concentração de 0,25 micrograma por mililitro para interromper o crescimento do tumor. Os resultados são similares ao da droga mais popular da quimioterapia, doxorrubicina.

Até ai nada demais. Afinal, para ser um grande remédio, não basta matar a doença: é preciso, acima de tudo, não matar o paciente junto. E é nisso que o “composto 37” realmente surpreende.

Com a ajuda de pesquisadores da Unicamp, Quincoces injetou a substância em camundongos, para descobrir a dose letal. No caso da doxorrubicina, que tem efeito devastador para o organismo, com 20 mg/kg (20 miligramas para cada kilo de camundongo) é possível matar metade das cobaias.

“Eu pensei que meu composto fosse também altamente toxico. Mandei um grama para a Unicamp e pensei,” “bom, vai dar e sobrar”, conta Quincoces. Mas não foi bem assim que aconteceu. Injetaram 2,5 g/kg e nenhum dos dez camundongos morreu. Com 4 g/kg, mataram apenas um. Com 5 g/kg, morreram so dois. A dose letal foi calculada em 8,54 g/kg.”

“Com isso, meu composto pode ser calculado como atoxico”

Quincoces pretende agora iniciar os testes in vivo com camundongos vitimados por tumores. O plano é conduzir esse procedimento na Unicamp com financiamento da Fapesp. O projeto já foi aprovado pela instituição, mas está parado em razão da suspensão temporária das importações por conta da alta do dolar.

Mesmo sem esses testes, o pesquisador já uniu forças com a Fapesp para pedir uma patente para a substância, que também parece ter um poderoso efeito analgésico (ao menos deixou os camundongos bem grogues e imunes à dor). Quando ela for concedida, Quincoces pretende publicar os resultados e deixar de chamar sua droga de “composto 37”, em favor da formula real do medicamento.

Voltar